Sexta-feira, Janeiro 21, 2005


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

O machismo moderno é...


... entre outras coisas, cursos de iniciação à culinária e à puericultura só para homens, reportagens na televisão sobre o admirável mundo novo deles na cozinha e a mudar fraldas, mostrando o aperto de mão carinhoso da namorada depois de saborear aquela que teria sido a primeira refeição confeccionada pelo namorado, com o comentário de mestre da pivot de serviço "afinal, é tão fácil, é só pagar-lhes um curso".

Terça-feira, Janeiro 18, 2005


A única coisa de que gostei foi da banda sonora. De resto, achei um filme banal, que se vê bem mas que muito em breve será esquecido.

Quinta-feira, Janeiro 13, 2005


Apesar do ska não ser o meu género favorito, apesar de conhecer apenas um best of da banda editado já depois da morte do vocalista, apesar da califórnia não me dizer nada, é a ÚNICA k7 que nunca foi trocada por outras em operações de limpeza pontuais do carro e que continua a ter lugar quase cativo nas minhas viagens. As letras, essas, são do melhor que há, como prova este excerto de uma música relativa aos confrontos de 1992 em Los Angeles...

April 26th, 1992
There was a riot on the streets
Tell me where were you?
You were sittin' home watchin' your TV
While I was participating in some anarchy
First spot we hit it was the liquor store
I finally got all that alcohol I can't afford
With red lights flashin', time to retire
And then we turned that liquor store into a structure fire
Next stop we hit, it was the music shop,
It only took one brick to make the window drop
Finally we got our own P.A.
Where do you think I got this guitar that you're hearing today?


Sublime, April 26th, 1992

Desculpa?! Hã?!


Já dizia o Pedro Mexia, Em Memória, que

Quando, muito depois, se abre
um livro, tudo o que ele
guardar está ressequido,

flor, fotografia, bilhete
ou anotação privada,
aí deixados para que

no imediato não nos
esquecêssemos e no futuro
não nos fôssemos lembrar.


Acabei de descobrir, numa carta nunca enviada escondida entre Medeia no Exílio e A Fundação de Tróia, que, há seis anos, me passou pela cabeça tirar outro curso, dedicar-me ao ensino e ir por esse país fora instruir os mais isolados, ao mesmo tempo que colaboraria em jornais e rádios locais.

(razão tinham os teus pais para pensar que andavas perto da loucura por aqueles dias... felizmente, já na altura sabias que não seria a mitologia grega a fazer-te lembrar de tamanha bizarria num futuro suficientemente próximo que pudesse causar algum tipo de estrago efectivo).

E ainda há quem diga que os livros não servem para nada.

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

O cansaço anterior não tinha nada a ver, mas é sempre bom saber. Fico muito mais descansada.


22:15, ti ti... ti ti, o som monocórdico mais estimulante que existe para mim, uma utilizadora compulsiva.

"Conheci 1 gajo muita giro pra ti! E colega do nuno. Temos de arranjar forma de se verem!"

Dúvida: quererá ela dizer com isto que posso ficar descansada, ou que posso ficar descansada? Hummm...

O que há em mim...


...é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos


Ainda um dia gostava de ver este poema cantado.

Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

Provérbios Populares


Pau que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Que é como quem diz, neste momento encontro-me em estado reservado de optimismo céptico. Ou será antes de cepticismo optimista? De uma coisa não tenho dúvidas. Apesar de tudo, estou de férias.

Quinta-feira, Dezembro 30, 2004

2004, eis o que te digo:


Now that i've met you, would you object to never seeing each other again? Desculpa lá, pá, mas é que já não há mesmo pachorra. Baza de uma vez por todas, ok?

Quarta-feira, Dezembro 29, 2004

O tiro que lhes saiu pela culatra ou Eu sou o Pinóquio, esse grande malandro!




Durante anos e anos (sei que a noção de tempo naquela idade é muito relativa mas, para mim, tratou-se de uma eternidade, sem qualquer sentido negativo) a hora da última refeição do dia foi passada connosco, eu e o meu irmão, sentados cada um em seu banco de cozinha, a receber colheradas de sopa das pacientes mãos da nossa mãe e com os ouvidos pregados na mágica boca do nosso pai, da qual, noite após noite, iam saindo as palavras que mais queríamos ouvir, muitas vezes já cansadas e gastas, da história do Pinóquio. O Pinóquio, o boneco de madeira filho do carpinteiro Gepeto, que era muito preguiçoso, que não gostava da escola, que fugia com os amigos, que mentia muito ao pai, que cada vez que pregava uma mentira o nariz crescia, que acabou nas entranhas escuras de uma baleia, onde encontrou o pai que há tanto tempo andava à procura dele, depois de mais uma das suas artimanhas para fugir à escola, mas que teve tanta sorte que conseguiu que escapassem os dois e vivessem felizes para sempre.

Para mim a história nunca teve grande moral, tirando aquilo de não se dever mentir, o que, pelo post anterior, se pode verificar que cumpro à regra. Mas acredito que, para os progenitores, não tenha sido por acaso que a história que povoou a meninice dos seus mais que tudo tenha sido esta e não a da Gata Borralheira ou a do Gato das Botas. Aposto que tinham qualquer coisa em mente, do género "vamos transmitir-lhes valores que lhes serão úteis ao longo da vida". Mas, este natal, passados mais de 25 anos, verifiquei como nem sempre apreendemos o que nos tentam transmitir, mesmo que nos tenha sido dito vezes sem conta, sob a forma de uma história que adorávamos, noite após noite, pelas pessoas que mais amávamos. Ou porque não devemos muito à inteligência, ou porque não estamos para aí virados ou, simplesmente, porque há coisas mais aliciantes do que as regras e a moral das histórias.

Voltando ao natal, os meus pais decidiram oferecer-me, num gesto simbólico, uma edição lindíssima com o texto original das Aventuras do Pinóquio. E lá está. Li o livro de enfiada e percebi que, para além da baleia não ser nada uma baleia, mas sim um tubarão (malditas adaptações da Disney!), não tinham servido de nada as horas perdidas naqueles bancos de cozinha. Eu sou e serei sempre o Pinóquio. Preguiçosa. Que procurará sempre alcançar os seus poucos objectivos através do caminho mais fácil.

Mentirinha inofensiva.


O que é que se faz quando se empurra a porta entreaberta da casa de banho e sai lá de dentro, ainda a apertar as calças e com um sorriso monumental, a vocalista de uma das bandas preferidas nos últimos anos, de cujo último álbum ainda não se conseguiu perceber bem se se gosta ou não?

Pede-se desculpa, faz-se uma cara de espanto, diz-se olá com um sorriso patético e afirma-se triunfalmente que o concerto de há três semanas foi magnífico e que o último álbum é maravilhoso. "Era ela, bolas! O que é que eu lhe ia dizer? Que não gostava?!"

Ando numa angústia desde o dia em que saiu e o comprei. É que, não sei, bolas, não sei se gosto, mas também não sei se não gosto. Há quem por lá pergunte, e muito bem, se andamos por perto... pois, acho que sim, que é isso, que ando near, mas ainda não estou there.

Segunda-feira, Dezembro 20, 2004


Ao fim de 4 anos de ausência, recupero esta semana a relação perdida com o meu irmão. E nunca como antes este primeiro parágrafo de uma das músicas mais bonitas de sempre fez tanto sentido, independentemente do contexto. Ouve-me a sussurrar-te ao ouvido...

You say my love for you's not real
But you don't know how real it feels
All I want to do is to spend some time with you
So I can hold you, hold you


Your sister says that I'm no good
I'd reassure her if I could
All I want to do is to spend some time with you
So I can hold you, hold you

Plans fail every day
I'd want to hear you say
Your love won't be leaving
Your eyes aren't deceiving

Fears will soon fade away
Smile now, don't be afraid
All I want to do is to spend some time with you
So I can hold you, hold you

So let me whisper in your ear
Don't you worry they can't hear
All I want to do is to spend some time with you
So I can hold you, hold you


This Mortal Coil, You And Your Sister

Sábado, Dezembro 18, 2004


Facto 1: nunca conseguirei escrever sobre música(s) como o Nick Hornby. Facto 2: não sou uma melómana. Facto 3: gosto muito de música. Facto 4: há canções especiais.

Na ânsia de querer fazer parte daquele grupo da escola que fazia das suas referências musicais a forma máxima de exprimir a sua diferença e superioridade, ia construindo na minha cabeça um discurso apoiado em cópias de bandas mais ou menos obscuras (pelo menos, para mim), carinhosamente gravadas por alguns dos meus colegas. E foi com uma dessas cópias que tive, finalmente, o meu momento de glória, algures entre uma das mais feias cidades do sul e uma daquelas piscinas de escorregas azuis, num autocarro com um leitor de k7s farto de Santana e a suplicar por alguma coisa diferente. Mal eu imaginava que, depois dessa tarde, a minha vida nunca mais seria a mesma e que nela entraria para sempre um verdadeiro viciado em música.

I don't know what color your eyes are, baby,
But your hair is long and brown.
Your legs are strong, and you're so, so long.
And you don't come from this town.
My head is full of magic, baby,
And I can't share this with you.
The feel I'm on a cross again, lately,
But there's nothing to do with you.

I'm alive, so alive.
I'm alive, so alive.

Your strut makes me crazy, makes me see you more clearly.
Oh, baby, now I can see you.
Wish I could stop,
Switch off the clock,
Make it all happen for you.

I'm alive, so alive.
I'm alive, so alive.

I don't know what color your eyes are, baby,
But your hair is long and brown.
Your legs are strong, and you're so, so long.
And you don't come from this town.
My head is full of magic, baby, And I can't share this with you.
The feel I'm on top again, baby,
That's got everything to do with you.

I'm alive, so alive.
I'm alive, so alive.


Love & Rockets, So Alive

Naquela tarde fui a personagem que ansiava ser. A miúda da k7, a miúda que ouvia boa música. Passados 13 anos, ainda canto a música assim que a oiço, como naquela noite no Incógnito, em que, por momentos, voltei a sentir a glória, com alguém a olhar para mim e a fazer-me um enorme sinal de aprovação, como quem diz é isso mesmo, ou como quem pensa esta tipa percebe de música. Eu sempre me soube vender muito bem. Devia mudar de ramo.